Um terço dos jovens de Lisboa 'acusados' de crimes evocam problemas económicos

Um terço dos jovens de Lisboa 'acusados' de crimes evocam problemas económicos
Cerca de um terço dos jovens da área metropolitana de Lisboa "acusados" de crimes evocam problemas económicos graves como o fator ligado à prática desses atos, divulga um estudo do Centro de Estudos Sociais de Coimbra.
 
Apesar de 30% dos jovens, presentes a juizes de menores, evocarem problemas económicos graves, "todos os jovens" que foram a tribunal por prática de crimes vêm de famílias "que vivem com o salário mínimo, pouco qualificadas" e da "periferia" de Lisboa, explanou João Pedroso, coordenador de um projeto de investigação sobre criminalidade juvenil, realizado no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.
 
Contudo, com a crise, não se tem observado "um aumento visível" da delinquência juvenil na área metropolitana de Lisboa, disse à agência Lusa o investigador do CES.
 
Os pais dos jovens dos processos tutelares educativos findos (processos que chegam a fase judicial) estão "na sua maioria integrados no mercado de trabalho" (68%), estando apenas 18% desempregados ou não ativos.
 
Porém, quase um terço dos pais são "trabalhadores não qualificados", 25% estão no grupo do "pessoal dos serviços e vendedores" e 20% dos "operários, artífices e trabalhadores similares".
 
Os grupos familiares desses mesmos jovens apresentam múltiplas problemáticas, registando-se violência doméstica em 23% dos casos, negligência parental em mais de 30% e em cerca de 10% dos grupos familiares havia "referência a problemas de toxicodependência e criminalidade ou detenção" de familiares dos jovens.
 
Dos 104 processos tutelares educativos findos analisados em cinco tribunais de família e menores de Lisboa, em 2012, 52% dos jovens tinham 16 ou 17 anos.
 
34% vinham de famílias nucleares e 19% de famílias monoparentais femininas, registando-se ainda que 17% dos jovens estavam institucionalizados "no âmbito de processos de promoção e proteção", relativos a sanções anteriores.
 
João Pedroso sublinhou ainda a baixa percentagem de processos que acabam com uma sanção por parte do tribunal - 15% -, sendo mais de metade dos processos arquivados pelo Ministério Público (MP).
 
O projeto de investigação, que também se debruça sobre o fenómeno da delinquência juvenil feminina, concluiu também que o MP "é mais condescendente" com as jovens no que toca ao arquivamento do processo tutelar.
 
Contudo, quando as raparigas vão à fase judicial e são acusadas, "há uma resposta mais dura" por parte do tribunal, em comparação com os rapazes, sendo que a proporção de raparigas institucionalizadas, no âmbito do programa de promoção e proteção, é sensivelmente o dobro dos rapazes, frisa o investigador.
 
O projeto de investigação do CES analisou 100 inquéritos tutelares educativos arquivados e 104 processos tutelares findos, de 2012, provenientes dos tribunais de família e menores de Lisboa, Setúbal, Barreiro, Loures e o Juízo de Família e Menores Grande Lisboa-Noroeste (Sintra).
 
Os resultados do projeto de investigação serão também discutidos e apresentados hoje no colóquio internacional "@s Jovens e o crime - Transgressões e justiça tutelar", que decorre na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.