Taxa de pobreza aumenta 80% na região de Lisboa

Taxa de pobreza aumenta 80% na região de Lisboa

A taxa de pobreza na região de Lisboa aumentou cerca de 80% em duas décadas, contrariando a tendência nacional, que entre 1993 e 2009 viu baixar o número de pobres de 22,5 por cento(%) para 17,9% do total da população.

Os dados são avançados no estudo “Desigualdade económica em Portugal”,realizado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que pretende fazer uma análise detalhada e rigorosa do que aconteceu à desigualdade económica em Portugal nos últimos 30 anos.

É um estudo que, não só apresenta os principais factores de desigualdade como também os relaciona com os níveis de vida da população e da pobreza e tem também uma preocupação de comparar com o que acontece na União Europeia.

“A intensidade da pobreza reduziu-se em cerca de 44% e a severidade da pobreza assume em 2009 um valor que é menos do que metade do registado em 1993”, refere o estudo, que toma como referência o ano de 2009, último ano para o qual existem estatísticas oficiais sobre a desigualdade.

O estudo refere também que há uma “acentuada dispersão” do rendimento médio das famílias entre as diferentes regiões.

Em Lisboa, a “região mais rica”, o rendimento médio das famílias é cerca de 37% mais elevado do que na Madeira, a “região mais pobre”.

No entanto, entre 1989 e 2009, a taxa de pobreza na região de Lisboa subiu cerca de 80%, o que poderá ser explicado pela emergência de novas formas de pobreza, particularmente associadas às grandes concentrações urbanas e ao desemprego.

O estudo destaca ainda a evolução da taxa de pobreza dos idosos em Portugal, que num período de 15 anos baixou de cerca de 40% (em 1993) para 21% (2009), o que não aconteceu com a pobreza infantil, que “permanece bastante elevada”.

O coordenador do estudo disse à Lusa que foram registados “progressos muito significativos ao nível da redução da taxa de pobreza”, mas realçou que o “mais importante” foi a forte diminuição da intensidade da pobreza.

“A distância que separa os nossos pobres da linha de pobreza diminuiu”, disse Carlos Farinha Rodrigues, observando que a “situação de Lisboa contraria um pouco esta tendência geral”.

Como explicação para a diminuição da pobreza, o economista apontou as políticas sociais.

Contudo, adiantou, “é preciso perceber que as políticas sociais não são vocacionadas para reduzir as desigualdades”, mas para reduzir a pobreza e a exclusão social, sendo o seu efeito “relativamente pequeno em termos de desigualdades. Foi isso que se registou”.

O economista salientou que, desde 2010, tem vindo a assistir-se, “como tentativa de resposta à crise e ao défice das contas públicas, a uma fragilização crescente das políticas sociais”, que “inevitavelmente” vai ter consequências em termos “do agravamento da desigualdade e nas várias dimensões da pobreza”.

“Este estudo acaba em 2009, mas se calhar acaba também no fim de um ciclo de redução, pequeno mas efectivo, das desigualdades e das várias dimensões da pobreza”.

“Todos os sinais que temos apontam para que a probabilidade de haver uma inversão deste ciclo seja muito grande”, disse Farinha Rodrigues, acrescentando que há um conjunto de indicadores que apontam para o eventual agravamento das desigualdades e da pobreza.

Por um lado, o “refluxo das políticas sociais”, que excluem muitas pessoas do acesso às políticas sociais e diminuem os seus montantes, e, por outro, o aumento do desemprego, que acelerou fortemente a partir de 2010 e que também tem um papel efectivo no aumento da desigualdade e da pobreza, explicou.

O estudo vai ser discutido na quinta-feira no Conselho Económico e Social (CES).