Rita Blanco teme dias difíceis para a cultura

Rita Blanco teme dias difíceis para a cultura

Foi no dia em que regressou a casa, depois de uma temporada a filmar em Paris, que o Jornal da Região encontrou Rita Blanco em Lisboa, numa azáfama tremenda entre ensaios da nova peça de teatro que tem em cena no Bairro Alto, “Os desastres de Amor”, vida doméstica e novos projectos.

Sempre irreverente, Rita Blanco é das actrizes mais respeitadas em Portugal, mas também das mais divertidas, sempre mordaz e pronta a colocar o dedo na ferida, quando assim é preciso. Foi dessa forma genuína que a actriz integrou a apresentação da 3.ª edição do Córtex – Festival de Curtas-Metragens de Sintra (28 de Novembro a 2 de Dezembro), em que vai desempenhar as funções de júri, conjuntamente com Teresa Villaverde, Vasco Câmara e Laura Soveral, e onde, disse a actriz, espera ser “surpreendida”.

Muito crítica acerca da forma como a cultura é tratada em Portugal, Rita Blanco disse ter ficado chocada por ler num jornal há uns dias, depois de participar numa curta-metragem, sem ganhar nada, que “afinal é possível fazer cinema sem dinheiro”. “Não, não é”, disse peremptória. “Eu não acredito que se consiga fazer bom cinema sem dinheiro”. A actriz esclareceu ainda que “o cinema português não é subsidiado pelo Estado, mas se o fosse, não fariam mais do que a sua obrigação. Mas, infelizmente, o cinema é apenas feito com dinheiro que vem da publicidade”.

Muito pouco optimista em relação ao futuro, Rita Blanco acredita que vão surgir muitas mudanças no dia-a-dia dos portugueses: “Vamos ter que encontrar maneiras novas de trabalhar com a crise que está e com a que ainda lá vem”. Por ver cada vez mais projectos a ficarem na gaveta, por ver cada vez mais artistas sem trabalho, pessoas a deixarem de ter posses para ir a espectáculos e “até pessoas que já nem conseguem rir”, Rita não tem qualquer dúvida que “precisamos de cultura porque senão vamos morrer mais estúpidos do que já estamos e, francamente, parece-me que já estamos no limite”.

Não sendo uma conhecedora exímia de curtas-metragens, a actriz, que elevou o nome de Portugal com o filme “Sangue do Meu Sangue” que conquistou tudo e todos no Festival de Cannes, acredita que este é “um bom formato para novos realizadores começarem a dar os primeiros passos” e assegurou gostar de ver talentos confirmados a trabalharem com talentos emergentes.

Em Portugal, o cinema português parece estar a viver uma boa fase, com muitos títulos nacionais a fazerem história lá fora e com o trabalho dos actores reconhecidos internacionalmente, mas Rita Blanco alerta que “para o ano, vamos ver as consequências de todos estes cortes. O cinema português vai sentir muito esta crise porque os realizadores não vão poder fazer mais cinema. Não vão ter dinheiro para mais filmes”.

Já em passo de corrida, Rita olhou para nós e disse: “Lembrem-se, lembrem-se que o filme do Canijo está em oitavo nos Óscares”, e despediu-se assim, em forma de aviso e alerta para a cultura nacional.

Ana Raquel Oliveira

Foto: Filipe Guerra