'Noite da liberdade' recorda confrontos nazis de 1930, no Teatro de Almada

'Noite da liberdade' recorda confrontos nazis de 1930, no Teatro de Almada
Os confrontos ocorridos em 1930, na cidade de Murnau, na Baviera, são o tema da peça "A noite da liberdade", do dramaturgo austro-húngaro Ödön von Horváth, que se estreia na sexta-feira, no teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.
   
"Noite da liberdade" baseia-se nos confrontos que opuseram os defensores da República alemã aos nacionais-socialistas de Hitler, e a ação desenrola-se em torno da taberna do senhor Josef Lehninger, que, à tarde, aluga a sala aos nazis, para que celebrem o Dia Alemão, e, à noite, aos republicanos, para os festejos da Noite Italiana.
 
Nesta peça, Horváth descreve a forma como, na Alemanha de Weimar, os sociais-democratas não foram capazes de travar o avanço do nacional-socialismo.
 
E se, na peça peça anterior "Em direção aos céus", também do dramaturgo, que a Companhia de Teatro de Almada estreou em 2013, a denúncia da escalada da "besta negra" é feita nos moldes de "uma história de encantar", desta vez o autor denuncia abertamente a passividade de uma sociedade que não conseguiu evitar uma das mais trágicas catástrofes da Humanidade.
 
Para Rodrigo Francisco, que encena o espetáculo, trata-se de uma peça "muito atual", cuja relevância de se fazer agora é tanto mais importante "quanto a Europa se encontra ameaçada pelo ressurgimento de partidos da direita e neonazis".
 
"Que democracia é esta em que vivemos? Será que somos capazes de nos defender de partidos como a Aurora Dourada ou a Liga do Norte", interrogou-se Rodrigo Francisco.
 
Por isso, levar ao palco esta peça, nesta altura, é também uma forma de alertar as pessoas para os perigos com que nos confrontamos.
 
"Perigos como a subida ao poder de políticos da direita pela via democrática, como foi a recente eleição do presidente dos Estados Unidos. E nunca é demais esquecer-nos de que Hitler também subiu ao poder pela via democrática", observou o encenador.
 
Ödön von Horváth (1901-1938), escritor de língua alemã, nascido em Fiume, na actual Hungria, considerava-se um produto típico do império austro-húngaro, tendo-se fixado em Berlim nos anos 1920.
 
Em quinze anos escreveu 18 peças profundamente marcadas pelo contexto da ascensão do nazismo.
 
Horváth gostava de unir os universos do quotidiano com o fantástico, do realismo com a ironia, da comédia com a tragédia.
 
Nas suas peças, o conflito dramático acaba por não ocupar um lugar central -- ainda que se imponha, disseminado por todo o lado, nomeadamente nos choques entre o consciente e o subconsciente das suas personagens.
 
"Noite da liberdade" é interpretada por Adriano Carvalho, André Pardal, Carlos Fartura, Duarte Guimarães, Guilherme Filipe, João Farraia, João Tempera, Maria Frade, Maria João Falcão, Marques D'Arede, Miguel Sopas, Pedro Walter e Tânia Guerreiro, com a participação especial de Io Appolloni, dos estagiários Joana Castanheira, João Lisboa, Gabriela Lobato, Ruben Alex, Sileita Varela e Sofia Gonçalves, e das amigas Dorinda Castro, Lucie Graux e Margot Viala.
 
A cenografia é de Jean-Guy Lecat e os figurinos de Ana Paula Rocha.
 
A peça vai estar em cena até 11 de dezembro, de quarta-feira a sábado, às 21:00, e aos domingos, às 16:00.
 
No dia 10 de dezembro, às 18:00, no 'foyer' do teatro, haverá uma conversa com o público em torno da peça.