Mercados: Do velho se faz novo, para agrado de vendedores e visitantes

Mercados: Do velho se faz novo, para agrado de vendedores e visitantes
Antigos mercados tradicionais de Lisboa são hoje um quadro dos novos tempos, onde as cores das frutas e legumes e o apregoar dos vendedores partilham o lugar com a pintura moderna ou o ruído habitual dos espaços de restauração.
 
Bancas de vendedores de avental antigo misturam-se com a sofisticação das novas bancas de restauração ‘gourmet', uma coexistência já consumado em Lisboa, Cascais e, mais recentemente, em Oeiras, no Mercado Municipal de Algés, e que agrada a quem vende e a quem compra.
 
O Mercado de Campo de Ourique abriu caminho a este novo conceito. A degradação do espaço foi a principal motivação da Câmara de Lisboa para concessionar aquele local e torná-lo mais atrativo.
 
A funcionar desde novembro de 2013, o novo mercado é "um sucesso", segundo um dos diretores do espaço, Frederico Lebre.
 
"A adesão dos cidadãos a este novo conceito tem sido espetacular, o que prova que existem muitos espaços públicos que estão em deterioração e que podem vir a ser dinamizados e gerar novamente fluxo, não só para os novos comerciantes, como para os antigos", sustentou.
Aos resistentes à mudança, Frederico Lebre lembrou que houve preocupação em "respeitar ao máximo" a tradição.
 
"Mantivemos o novo conceito junto com o mercado tradicional. Além disso, tentamos que os consumidores dos restaurantes também consumam nos mercados tradicionais e a verdade é que, desde que inaugurámos este novo conceito, a faturação dos lojistas que já cá estavam aumentou consideravelmente", frisou.
 
Vendedora em Campo de Ourique há mais de 50 anos, Glória reconhece a mudança "para melhor".
 
"O mercado estava a ficar muito vazio e então havia ‘ruas' que já não tinham comerciantes nenhuns. Esta ideia foi muito boa, porque veio para aqui muito turismo", disse.
 
O agrado não é só de quem ali ‘mora' há várias décadas, mas também dos que visitam o mercado pela primeira vez.
 
"Maravilhoso. Venho do Brasil, de São Paulo, e lá há mercados mas não com esta diversidade, com estas cores e essa mudança [do tradicional para o moderno] é muito subtil. Consegue-se aproveitar o novo, mas sem perder o passado. É a minha perceção", afirmou Carolina.
 
O conceito alargou-se há pouco mais de um ano ao Mercado da Ribeira, agora explorado pela revista Time Out, que agrega o mercado tradicional e uma praça de restauração e esplanada.
 
"Temos dezenas de milhares de turistas todas as semanas e, portanto, não podia ser melhor", afirmou o diretor, João Cepeda.
 
Quanto às vozes críticas, o responsável admitiu que as construtivas até são aproveitadas para melhorar.
 
"Continuamos a ter o mercado concentrado numa zona nobre e a ter todos os vendedores no seu mercado de sempre. Conseguimos complementar isso com uma oferta que os turistas e os locais querem e que acaba por trazer pessoas ao mercado tradicional. Vozes críticas há sempre em todos os projetos, é normal, mas até nos ajudam a melhorar", afirmou.
 
Jordi veio de Espanha com a família e quis mostrar-lhes o Mercado da Ribeira, um espaço que só conheceu depois de requalificado.
 
"Não conhecia o mercado antigamente e só viemos porque já sabia que havia esta oferta culinária. É um espaço muito agradável e acho que é necessário a mistura para o turismo, para as pessoas conhecerem as tradições e terem algo moderno", disse.
 
Mais recente, mas já com registo de sucesso, o Mercado de Cascais adotou a união do "antigo e moderno", sob o mesmo pretexto de atrair mais visitantes.
 
"O primeiro grande objetivo foi manter o espírito do mercado e de feira. Conseguimos. Paralelamente a isso, e porque era um espaço só visitado às quartas-feiras e sábados, era necessário trazer uma nova energia e por isso decidimos requalificar", contou o vereador da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes.
 
A veia tradicional dos mercados antigos mantém-se "bem viva", segundo o vereador, e os vendedores gostam.
 
"Precisamos de mais clientes. Os eventos fazem falta, mas os clientes também. Deveria haver mais condições, mas com tempo tudo se fará. Eu acredito que o objetivo da Câmara é inovar e não prejudicar-nos", afirmou Júlia, peixeira no Mercado de Cascais há 37 anos.