Memórias das lojas recriadas em teatro na Baixa de Lisboa

Memórias das lojas recriadas em teatro na Baixa de Lisboa
Com características tradicionais e vestígios próprios de mais de um século de existência, 11 lojas da baixa pombalina de Lisboa começaram hoje a ser palco do 'Teatro das Compras' apresentando histórias criadas a partir das memórias de cada espaço.
 
Inserido no programa das Festas de Lisboa, o projeto 'Teatro das Compras' vai dinamizar as lojas da baixa lisboeta até ao dia 27 de junho, com espetáculos entre 20 e 25 minutos, em que qualquer pessoa pode assistir e envolver-se de forma gratuita.
 
"Sentimos a preocupação de chamar a atenção para o comércio tradicional e, nomeadamente, para o património que estas lojas, algumas delas centenárias, representam para a cidade", afirmou à agência Lusa a presidente da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), Joana Gomes Cardoso.
 
A iniciativa vai apresentar 11 histórias dos autores Joana Bértholo, Afonso Cruz e João Tordo, que foram desafiados a "entrar dentro da loja, entrar na memória da própria loja e, a partir dos produtos que vendem, imaginar histórias", informou o responsável pela direção artística do projeto, Giacomo Scalisi.
Barbearia Africana, Casa Macário, Conserveira de Lisboa, Discoteca Amália, Manteigaria Silva, Polycarpo, Sealuz, Soares & Rebelo, Tavares -- Panos, Tricots Brancal e Restaurante Cervejaria Solmar são as 11 lojas da baixa lisboeta que servirão de palco ao projeto.
 
Entre os novelos de lã de todas as cores na Tricots Brancal ou o cheiro dos grãos de café na Casa Macário, os clientes destas lojas vão ser o público das 220 representações previstas, com 14 atores a recriarem as memórias destes espaços emblemáticos da cidade de Lisboa.
 
Atores, bailarinos e músicos dão corpo e voz a esses textos, transformando as lojas tradicionais em pequenos palcos onde se misturam funcionários reais e intérpretes e histórias reais e fictícias, contadas aos clientes habituais e aos espetadores do "Teatro das Compras".
 
A assistir ao espetáculo na loja Tricots Brancal, Marta Bernardes, de 31 anos, natural do Porto e a residir em Lisboa há dois anos, considerou o projeto "muito interessante" por "trazer o teatro a um lugar onde não é o público de teatro, onde as pessoas são surpreendidas pela aparição dos textos e dos corpos dos atores, num lugar inesperado".
 
"Há um transfundo político para além da questão poética e da diversão que sempre implica este trabalhar da memória e das possibilidades destas pequenas lojas, que ainda resistem em Lisboa", disse à Lusa a espetadora, lamentando que esta "história viva da cidade" -- os estabelecimentos tradicionais - comece a ser "vendida, desocupada, desmantelada" e que este património imaterial da humanidade fique "sem arquivo, sem lugar, sem espaço".
 
Nesta que é a sétima edição do 'Teatro das Compras', a responsável da EGEAC explicou que o projeto "tem vindo a crescer, quer em termos das lojas que se associam - este ano foram 10 lojas e um restaurante -, quer em termos de público".
 
Este ano, a novidade é que haverá um jantar espetáculo interpretado pelas personagens das várias peças, no Restaurante Cervejaria Solmar, dia 27 de junho, às 20:00.
 
Durante as duas semanas de teatro nas lojas da baixa, as 220 sessões disponíveis repartem-se em horários diferentes às quintas, sextas-feiras e aos sábados durante o dia.
 
"A EGEAC dispensa cerca de 25 mil euros em custos de produção para este espetáculo", informou Joana Gomes Cardoso.