Joaquim Monchique e Maria Rueff homenageiam a idade sénior

Joaquim Monchique e Maria Rueff homenageiam a idade sénior

Podiam ser duas senhoras. Podiam ser apenas duas velhas num palco. Mas não. “Lar, Doce Lar” junta pela primeira vez em cena dois dos mais queridos actores de humor em Portugal, Maria Rueff e Joaquim Monchique, num cenário de uma residência sénior de luxo que pretende fazer uma homenagem à idade sénior.

Construída a partir de um texto de Luísa Costa Gomes, “Lar, Doce Lar” tem apenas dois actores, mas são oito as personagens que surgem em palco. Maria Rueff interpreta cinco pessoas diferentes e Joaquim Monchique outras três, o que obriga a um entra e sai de adereços absolutamente frenético.

“Foi talvez o trabalho mais extenuante para mim e para a Maria”, começa por dizer Joaquim Monchique acerca de uma comédia que, em termos de bastidores, quase se compara aos “Jogos Sem Fronteiras”. Em poucos segundos, trocam de roupa, de cabeleiras, postura e até de voz. “Na verdade ali atrás (do cenário) temos duas pistas de aterragem: uma para mim outra para a Maria, para nunca nos cruzarmos. Eu mudo de roupa 23 vezes e a Maria 25”, revela o actor, acrescentando que mais difícil que mudar de roupa é mudar a personagem ao nível da postura.

Maria Rueff considera ainda que “o mais difícil é manter cada personagem na sua história” durante a rotatividade feita em palco.

Esta é a primeira vez que Joaquim Monchique e Maria Rueff contracenam em palco, mas há muito que trabalham juntos. E isso faz toda a diferença. “Na verdade, a cumplicidade é a mesma, mas o melhor disto é que podemos levar as coisas mais longe. Na televisão é tudo para ontem, temos que chegar à personagem em segundos e aqui não. Na verdade, nós estamos aqui ‘internados’ há dois meses e isso é muito bom porque permite-nos chegar mais longe”, defende Maria Rueff.

Os dois actores referem que é muito mais gratificante trabalhar em teatro, até porque “a responsabilidade é muito maior. As pessoas pagam bilhete para nos ver e não há nada que chegue a isso. Não estão em casa a ver o que dá na TV, nem deixam a gravar e vêem no outro dia. Eles vêm aqui de propósito”, diz Monchique.

Depois do Casino Lisboa, a dupla de actores promete partir em digressão pelo país fora, algo que não dispensam. “É maravilhoso, sobretudo pela alegria das pessoas fora dos grandes centros urbanos. Aqui em Lisboa as pessoas têm tudo à mão. Ou vão hoje, ou deixam para amanhã, mas quando vamos para fora sentimos a alegria das pessoas que não querem perder a oportunidade de nos ver. E isso é muito bom”.

Sem papas na língua, Joaquim Monchique adianta ainda que “fora de Lisboa há grandes salas de espectáculo. Infelizmente, em Lisboa deitámos abaixo grandes salas para fazer centros comerciais, o que é uma pena. Quando os meus amigos estrangeiros vêm cá e pedem para ir à zona dos teatros eu digo: vamos noutro dia. Que é para ver se esquecem, porque hoje em dia não há sequer uma rua que seja de cultura. Infelizmente, os nossos políticos só tomam medidas para destruir e nunca para fazer”, enfatiza o actor.

Na mesma linha do discurso crítico, Monchique adiantou também que fez questão de pedir à UAU (promotora do espectáculo) para ter nesta peça “preços como antigamente. Nós temos bilhetes dos 10 euros, de onde se vê maravilhosamente, depois passa para os 13, para 20 e para os 22. Portanto não digam que é caro ir ao teatro. Acrescente-se que ainda temos que pagar uma fortuna de IVA em cada bilhete porque os governos assim quiseram. Mas nós não vamos desistir!”

Resta agora esperar que o público responda à altura e saia de casa para umas boas gargalhadas que permitam, por momentos, colocar a austeridade de lado e seguir o exemplo destas duas senhoras de 80 anos que apenas querem curtir a vida até ao fim!

Texto: Ana Raquel Oliveira

Joaquim Monchique e Maria Rueff