Isaltino Morais revela em livro tudo o que fez nos 429 dias em que esteve preso

Isaltino Morais revela em livro tudo o que fez nos 429 dias em que esteve preso

O livro “A Minha Prisão”, de Isaltino Morais, é colocado à venda na sexta-feira, com um relato sobre os 429 dias em que esteve preso, na sequência da condenação pelos crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

“E se acontecesse consigo?”, pergunta, na capa da obra editada pela Esfera dos Livros, o ex-presidente da Câmara de Oeiras, que, em quase meio milhar de páginas, reclama “a defesa da honra”, por ter sido condenado por crimes que reclama não ter cometido.

O ex-autarca “modelo” social-democrata, que passou dois dias numa cela da Polícia Judiciária, em 2011, antes de ser preso, em abril de 2013, para cumprir mais 427 dias, no Estabelecimento Prisional da Carregueira, em Sintra, deixa claro que não considera “que tenha sido perseguido pelo sistema judicial”, mas condena os magistrados que “se preocupam mais com capas de jornais do que com o Direito e a Justiça”.

O recluso número 721, que partilhou cela com condenados por homicídio, tentativa de homicídio, pedofilia e furto de automóveis, aproveita para ajustar contas com magistrados e políticos, que participaram no processo ou que comentaram o seu caso no espaço mediático.

As “limitações” e os “erros” da juíza que determinou a sua primeira detenção são exemplos das falhas do sistema judicial e penal, mas o social-democrata Luís Marques Mendes é apodado de “ingrato”, pelos comentários, e de não ter “qualquer tipo de coluna vertebral”, quando aceitou ser ministro de Durão Barroso.

O “presidente” ou “tio Isaltino”, como era tratado entre os muros da Carregueira, cruzou-se nos corredores e no pátio da cadeia com Vale e Azevedo, Carlos Cruz ou Ferreira Diniz, e no diário que escreveu relata “a morte de um companheiro de cela por falta de intervenção médica” e a forma como se tornou “vegetariano por necessidade”.

“Sei que, depois do que aconteceu no meu processo, nunca mais deixarei de dar o benefício da dúvida a quem quer que a justiça portuguesa condene”, admite Isaltino Morais no livro, que proclama a prescrição dos crimes de fraude fiscal de que estava acusado, apesar de sempre ter assegurado nada dever ao fisco.

O dinheiro em contas bancárias na Suíça, como assumiu na sua defesa, era proveniente de fundos que sobraram das suas campanhas eleitorais à Câmara de Oeiras – não arriscava, como outros, guardar os montantes “em notas” –, e faz prova de honestidade com o apartamento onde mora e o automóvel “com mais de 10 anos” que possui.

Na contracapa da obra, assegura que “foi sujeito a revistas todo nu nas rusgas em busca de droga e telemóveis e sentiu as adversidades da cadeia duplicarem com as sucessivas greves dos guardas”.

O recluso da cela coletiva 407 “deu-se bem com todo o tipo de homens e até fez amigos, como o muçulmano a quem ofereceu secretos de porco, inadvertidamente”, lê-se na promoção da obra, provou “aguardente clandestina” e preparava piripiri, para si e para os outros reclusos, tempero que transformava um bife de 80 gramas em 200.

Foi atrás das grades que soube da vitória do movimento Isaltino Oeiras Mais à Frente, liderado por Paulo Vistas, que lhe sucedeu na presidência da Câmara de Oeiras, após ser detido, a 24 de abril de 2013, quando saía dos Paços do Concelho para ir almoçar.

O Tribunal da Relação de Lisboa decidiu, após mais de um ano de prisão, que cumprisse o resto da pena em liberdade condicional, o que ocorreu em junho de 2014.

Na sua única fotografia reproduzida no interior do livro ficou registada a saída da prisão transportando um saco preto com os seus pertences.

“A Minha Prisão” é apresentado, a 4 de junho, na Faculdade de Direito de Lisboa, e Isaltino Morais vai estar, a 6 de junho, na Feira do Livro de Lisboa, para mostrar que, apesar do que lhe aconteceu, não ficou “revoltado com a vida”.