Investigador prepara tese de mestrado sobre naufrágio do Roberto Ivens

Investigador prepara tese de mestrado sobre naufrágio do Roberto Ivens
O investigador Paulo Costa, que participou na localização do navio caça-minas Roberto Ivens prepara uma tese de mestrado sobre o naufrágio provocado por uma mina alemã na barra do Tejo, em 1917, e em plena crise política e social.
 
“A minha tese de mestrado conclui que o caça-minas Roberto Ivens não está onde se pensava e é contextualizada no ambiente que se vivia em julho de 1917, um mês complicadíssimo para o governo de Afonso Costa, em Lisboa” explica o historiador, um dos responsáveis pela localização exata dos destroços do navio da Marinha Portuguesa durante a Grande Guerra.
 
Na quarta-feira, assinalam-se os cem anos do afundamento do navio caça minas Roberto Ivens (antigo arrastão Lordelo), que naufraga ao colidir com uma mina lançada por um submarino alemão à entrada de Lisboa, tendo morrido 15 dos 22 tripulantes, incluindo o comandante, o primeiro-tenente Raul Cascais.
 
O historiador recorda que no mês de julho de 1917 decorrem sessões secretas no Parlamento, “porque havia muitas complicações na gestão de Portugal” e com a oposição a pedir também satisfações ao governo sobre o Corpo Expedicionário Português em França.
 
No mesmo mês verificam-se “revoltas em Lisboa e há fome”.
 
No Parlamento há sessões à porta fechada em que participa como membro do Partido Democrático (oposição) o comandante Leote do Rego, da Divisão da Marinha, ocorrendo uma “guerra de tinteiros” e insultos entre os deputados.
 
No dia 25 de julho de 1917 a oposição abandona o parlamento criticando a falta de diálogo do governo e no dia 26 de julho o caça minas Roberto Ivens afunda-se às portas de Lisboa.
 
“Foi a pior altura possível. Os jornais da época dizem-nos que Leote do Rego foi imediatamente à Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, receber os sobreviventes. No mesmo dia sai uma nota da Marinha que diz que o afundamento ocorreu ‘a 12 milhas ao sul de Cascais, um pouco ao norte do Cabo Espichel’”, sublinha Paulo Costa.
 
Na tarde do dia 26 de julho, o Roberto Ivens estava a navegar com o rebocador Bérrio, porque nas operações de desminagem participavam sempre dois navios, mas o diário de bordo não existe.
 
“Do Bérrio, existem os diários anteriores e os posteriores, mas o diário do dia da explosão da mina alemã não existe. Nunca entrou no arquivo histórico”, sublinha o autor do estudo.
 
“Eu penso que era muito complicado assumir-se perante o público e a oposição que submarinos alemães tinham entrado no Tejo, até ao Bugio. A informação foi ocultada e se lermos os diários de guerra dos submarinos alemães ficamos a saber que o inimigo navega à superfície e à vista de terra”, diz Paulo Costa acrescentando que o “assunto Roberto Ivens” acaba por cair no esquecimento com o passar do tempo.
 
A localização exata dos destroços do caça-minas ocorreu apenas em 2015 tendo o Instituto Hidrográfico da Marinha colaborado com os trabalhos de investigação do arqueólogo Alexandre Monteiro, do Instituto de Arqueologia e Paleociências e do investigador Paulo Costa, do Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa.
 
Uma das fontes para detetar o Roberto Ivens foi a descoberta e a análise do diário de guerra do submarino alemão UC54 que lançou as várias minas a apenas quatro milhas náuticas a sul do forte do Bugio, na foz do rio Tejo.
 
“Eu penso que dificilmente haverá outro episódio que possa ter tantos aspetos diferentes: História da Grande Guerra (1914-1918); História da Primeira República (1910-1926); destroços; património cultural subaquático; arqueologia subaquática; investigação em arquivo; memória, tradição oral da comunidade piscatória. Tudo no mesmo tema. Não sei se nos voltamos a cruzar com uma história desta dimensão”, refere o historiador que defende igualmente o estudo da memória dos factos junto dos descendentes.
 
“Há muito trabalho a fazer a esse nível: um sobrinho de um dos sargentos com quem já falei várias vezes conta que o tio morreu uma semana antes do casamento. Foi esta a memória que ficou na família: a noiva que ficou viúva antes de se casar. Espero desenvolver os aspetos relacionados com as memórias das famílias”, diz Paulo Costa acrescentando que os investigadores foram convidados pela Marinha a publicar uma monografia sobre o Roberto Ivens, em 2018.
 
No passado dia 19 de julho realizou-se o funeral militar, a bordo da fragata Bartolomeu Dias, no local da explosão, com deposição de flores, pelo primeiro-ministro, e os disparos de três tiros de salva em memória das vítimas, efetuados a partir da corveta João Roby e na presença dos descendentes das vítimas.