Inventário real regressa a Queluz

Inventário real regressa a Queluz
O manuscrito encadernado, com 71 páginas, foi adquirido através da leiloeira Sotheby’s e do antiquário S.J. Phillips e vem enriquecer o acervo do Palácio Nacional de Queluz, integrando-se na política de aquisições por parte da Parques de Sintra-Monte da Lua para os monumentos sob a respectiva gestão.
 
Datado de ‘Paris, 20 de Maio de 1816’, tem encadernação em couro marroquino vermelho com gravação a ouro e está marcado com as armas Reais de Espanha na capa e contracapa. Neste objecto estão anotadas jóias, roupas, artigos de lingerie, sapatos, leques, luvas, meias, cosméticos e acessórios (como 560 lenços de mão, sapatos de seda bordados, meias da melhor seda transparente, leques de vários tipos em marfim, entre muitos outros artigos), adquiridos aos principais estilistas, joalheiros e retalhistas de moda parisienses. 
 
As aquisições foram conduzidas, revela a empresa, pela Baronesa Ardisson, em nome da Rainha Consorte de D, João VI, no tempo em que a Família Real Portuguesa se encontrava no Brasil, para onde se deslocara na sequência das Invasões Francesas. “O documento permite obter uma boa noção da elegância e esplendor do guarda-roupa real no século XIX, e entender como a voluntariosa e controversa D. Carlota Joaquina queria estar alinhada com as tendências europeias”, acrescenta a empresa.
 
Este inventário encontrava-se numa colecção privada inglesa, sendo publicado pela primeira vez no catálogo da exposição ‘The S.J. Phillips Collection of Jewels of Portugal’, organizado pela Sotheby’s em Lisboa, em Maio de 2017. 
 
Para Inês Ferro, directora do Palácio Nacional de Queluz, “trata-se de um raro documento que nos chegou em excelente estado de conservação e que nos que dá acesso às escolhas pessoais da rainha e das infantas”. Este responsável recorda que “1816 foi um ano marcante  para toda a família real, e em particular para o universo feminino. D. Maria I morrera a 20 de Março desse ano e D. Carlota Joaquina era já rainha, apesar de a aclamação de D. João VI só se vir a verificar dois anos mais tarde. Por outro lado, para a grandeza desta encomenda, processada em Maio, terá também contribuído a circunstância de duas das infantas suas filhas estarem a poucos meses de partir para Espanha, onde em Setembro contrairiam matrimónio com dois tios maternos: D. Maria Isabel com o Rei de Espanha, Fernando VII e D. Maria Francisca de Assis com D. Carlos Isidro”. 
 
Este documento, conclui Inês Ferro, enquanto fonte de conhecimento para o estudo do vestuário e de todo o tipo de adereços, “é também fundamental para ajudar a compreender a iconografia e os retratos régios que o palácio possui desta época, em que o ‘estilo império’ marcava a moda então em voga”.