Fundação 'O Século' vai explorar bomba de combustível para financiar obra

Fundação 'O Século' vai explorar bomba de combustível para financiar obra

A Fundação “O Século” vai gerir um posto de abastecimento de combustível em Moscavide, através de uma cedência da Câmara de Lisboa para compensar a instituição pelo encerramento da Feira Popular, principal fonte de financiamento da obra social.
Uma compensação que, segundo o presidente da fundação, Emanuel Martins, fica longe da verba que a exploração do antigo parque de diversões garantia, desde 1943.
Quando a Feira Popular fechou definitivamente, no final da época de 2003, o município da capital e a Fundação O Século acordaram o pagamento de uma indemnização anual de cerca de 2,5 milhões de euros, correspondente à média anual de lucros do espaço de diversões, e com o compromisso de a instituição vir, no futuro, a construir um novo parque, onde a autarquia indicasse.
Mais tarde, o valor da indemnização seria reduzido para cerca de dois milhões de euros. No entanto, há cerca de três anos, a Câmara de Lisboa suspendeu o pagamento da verba, alegando falta de dinheiro, e deixou a fundação em grandes dificuldades de subsistência.
“Fomos aguentando o máximo que pudemos, até que a Câmara entendeu que, embora não pudesse pagar, não se sentia confortável deixando-nos sem nada. Disponibilizou-nos uma bomba de gasolina por 20 anos”, acrescentou Emanuel Martins, referindo, no entanto, que o lucro a auferir “não passa de um sexto do financiamento” anterior. Em abril o espaço já deverá estar a ser gerido pela Fundação.
Durante este impasse de dois anos, a instituição sobreviveu graças às poupanças que foi fazendo para poder construir uma nova feira.
“Ficámos com menos dois milhões de euros por ano para fazermos a nossa obra social. Obrigou-nos a uma reestruturação muito grande, de meios, de serviços, a contar todos os tostões e, seguramente, a não poder fazer como no passado, a pôr alguma coisa de parte”, descreveu à Lusa.
Das seis ou sete atividades de apoio social que a Fundação desenvolvia em 2003, hoje a instituição é responsável por 16 projetos, e tem recorrido a outras fontes de financiamento, nomeadamente através de protocolos com a Segurança Social e a Câmara de Cascais, concelho onde está sediada.
Dez anos após o fecho, Lisboa continua sem ter uma Feira Popular e o antigo terreno, em Entrecampos, é hoje um espaço abandonado e em ruínas, aguardando-se uma decisão do tribunal. Emanuel Martins apelida o processo de “caricato”.
“A solução da Feira Popular não foi a melhor para ninguém, especialmente para quem a visitava, mas foi a solução possível, presumo eu, para a Câmara Municipal de Lisboa”, disse.
O regresso de um espaço de diversões à capital depende, sublinha, de uma visão política.
Um parque de diversões, do ponto de vista de retorno financeiro, não tem grande significado para a autarquia. “O retorno que uma feira traz tem uma dimensão para além da financeira. Ou se tem uma perceção política desse retorno ou se olha exclusivamente para a lógica financeira e, seguramente, se for por aí, nunca mais a Área Metropolitana de Lisboa terá uma feira”, assegurou.
Emanuel Martins acredita que Lisboa precisa de um espaço desta natureza. “Toda a vida que a Feira Popular tinha era uma resposta à cidade de Lisboa e a quem a visitava. Era um património da cidade. Há aqui uma dose de afetividade e temos essa falta”.