Frei Hermano da Câmara celebra 50 anos de canto no Olga Cadaval, em Sintra

Frei Hermano da Câmara celebra 50 anos de canto no Olga Cadaval, em Sintra

O cantor e compositor Frei Hermano da Câmara festeja, na sexta-feira, no Centro Olga Cadaval, em Sintra, o seu cinquentenário artístico, uma efeméride que começou a celebrar no ano passado, com concertos no Tivoli-BBVA, em Lisboa.
O alinhamento do espetáculo de Sintra, cuja receita reverte para a sua congregação dos Apóstolos de Santa Maria, é o mesmo que foi apresentado nos três esgotados no Tivoli-BBVA.
Frei Hermano da Câmara, que será acompanhado pelos músicos José Luís Nobre Costa e Pedro Castro, na guitarra portuguesa, Francisco Gonçalves, na viola, e Joel Pina, na viola baixo, interpretará temas do cancioneiro popular, musicados por si, outros de cariz religioso e do seu repertório, antes de optar pela vida monástica.
Poderão assim ser escutados "Senhora da Agonia", temas retirados da Bíblia, como a glosa do "Pai Nosso", ou "Rapaz da camisola verde", de Pedro Homem de Mello, para o qual compôs a melodia.
Frei Hermano da Câmara, 78 anos, fez a sua primeira gravação, "Sunset and Sentimental", em 1959, tendo anteriormente atuado na Emissora Nacional, na Radiotelevisão Portuguesa e, esporadicamente, em casas de fado.
No início da carreira, Hermano da Câmara integrava, no seu repertório, "Minha mãe nasci fadista", no qual pede à mãe que "não lhe dê maior cuidado este [seu] modo de cantar", tem "um destino marcado" e, apesar de o "fado ser triste solidão", garante que tem "a sorte que Deus quis".
Em 1961, gravou o "Fado da Despedida", um dos temas que faz parte do alinhamento dos dois espetáculos. Neste fado, com letra de Adelaide Vilar e música própria, Hermano da Câmara dizia que se tinha entregado a Cristo e garantia: "Nunca mais me senti só".
Para espanto dos meios de comunicação da época, o fadista, em plena ascensão de carreira, decidiu entrar no Mosteiro beneditino de Singeverga, em Roriz, e passou a ser designado por Frei Hermano da Câmara.
Continuou então a cantar, mais esparsamente, com autorização do seu superior religioso, e a temática sentimental deu lugar à religiosa, com grande parte das letras de sua autoria, ou escolhendo temas de cariz cristão no cancioneiro popular, ou retirando-os de livros de música eclesiástica e até da Bíblia, mantendo o gosto por compor.
No espetáculo previsto para o palco sintrense, Frei Hermano da Câmara irá, entre outros, interpretar "Cordeiro de Deus" e "Espírito de Deus", retirados da Bíblia, mas também "Cantilena da Boa Gente", do cancioneiro popular, todos musicados por si.
Frei Hermano tem exercido assim o apostolado pela música, reenquadrando-se nos novos ventos que sopraram do Concílio do Vaticano II, concluído em 1965, e fez até uma experiência com o Quarteto 1111, para introduzir novos estilos musicais nos cânticos beneditinos de Singeverga. Esta experiência está registada no disco "Bruma azul do desejado" (1973).
Em 1978, compôs e gravou em disco uma peça baseada na vida de Jesus, "O Nazareno". O álbum, produzido por Mário Martins, com o Coro e Orquestra Gulbenkian, sob a direção musical de Jorge Machado, contou com a sua prestação, e ainda, entre outros, com Amália Rodrigues, Mara Abrantes e Carlos Quintas.
O disco vendeu mais de 80.000 exemplares e foi levado a cena, em 1986, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com alterações ao elenco da gravação, mas sempre protagonizado por Frei Hermano.
Em 1987, saído de Singeverga, criou a Comunidade dos Apóstolos de Santa Maria, cujo apostolado é a difusão dos seus ideais cristãos pela música, em conformidade com o Vaticano II.
Apesar deste vínculo a comunidades monásticas, Frei Hermano da Câmara atuou além-fronteiras e, com menor regularidade desde 2000, continuou a gravar. Em finais do ano passado, a UAU anunciou que estava previsto, "para breve", um novo álbum.