Expo'98 inaugurada há 15 anos mudou face da zona oriental de Lisboa

Expo'98 inaugurada há 15 anos mudou face da zona oriental de Lisboa

Do cenário cinzento e industrial que era a zona oriental de Lisboa muitos já nem se lembram e hoje o Parque das Nações impõe-se como uma zona nobre, mas há quem lhe aponte um excesso de construção.
Antes da Expo’98, inaugurada há 15 anos, a 22 de maio, existia naquela zona apenas um prédio. Hoje existem mais de oito mil e cerca de 14 mil residentes, de acordo com dados do Censos 2011.
Ter uma casa na Expo era o sonho de muitas pessoas quando o Parque das Nações começou a ser construído (também no vizinho concelho de Loures), mas os preços praticados tornaram-no possível apenas para alguns.
Segundo a Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), atualmente o preço de um apartamento no Parque das Nações ronda os 2.685 euros por metro quadrado e das vivendas os 2.550 euros por metro quadrado.
Contudo, a APEMIP ressalva que há vários fatores que podem alterar estes preços: “a sua localização, acessibilidades, piso, vista para o rio, proximidade de serviços de apoio, entre outros”. Regra geral, um imóvel num piso superior com vista rio é mais oneroso.
Além das habitações, o Parque das Nações dispõe de espaços verdes, centenas de áreas comerciais, serviços, um casino e infraestruturas culturais e é procurado por muitos como zona de lazer.
Por tudo isso, especialistas consideram-no um caso de sucesso, mas há também quem aponte o dedo ao excesso de construção
Em declarações à Lusa, o especialista em Urbanismo e Geografia Urbana da Universidade do Porto José Rio Fernandes considerou que o Parque das Nações é “uma das poucas grandes intervenções recentes” e admitiu vê-lo “com certo olhar favorável e otimista”.
“O meu olhar, visto de fora, é um olhar que fica com a perceção de que houve sucesso. É uma grande intervenção e no urbanismo português têm existido poucas grandes intervenções nas últimas décadas”, sublinhou.
Afirmando que “um dos melhores elementos de avaliação é o uso por parte das pessoas”, o especialista disse que aquele espaço “está a ser bem usado numa área que era industrial, pobre, deprimida”.
Para José Rio Fernandes, o que funciona “menos bem” é a “relação deste espaço com a envolvente”, porque, considerou, “este espaço respira mal com a envolvente, constitui-se quase como uma ilha, uma ilha de conforto e de qualidade e de elevadas densidades construtivas”.
O especialista referiu também que existe ali construção em excesso e admitiu que o planeamento daquele espaço esteve “muito condicionado por questões de natureza financeira”.
José Rio Fernandes defendeu ainda que a zona devia ser “menos ‘shopping’, mais comércio de rua, mais comércio independente e menos comércio de grande marca”.
Por seu lado, o arquiteto Manuel Salgado, que fez parte do plano de urbanização do Parque das Nações e é hoje vice-presidente da Câmara de Lisboa, lamentou os “projetos que não se concretizaram”, como uma urbanização de luxo.
“Eram iniciativas que podiam ter sido muito importantes para requalificar a zona oriental e estender o ‘efeito Expo’. Isso não se fez na altura e a partir de 2005 este ritmo acelerado de urbanização começou a cair. É uma oportunidade perdida e que vai demorar tempo até que se consiga recuperar este ritmo e levar a efeito uma série de projetos para ali”, disse.
Segundo Manuel Salgado, o plano da envolvente da Estação do Oriente também “perdeu a dinâmica” com a desistência da construção do TGV e da ampliação do Oriente.
Para o presidente da Associação de Moradores e Comerciantes do Parque das Nações, este é um “espaço único em Lisboa em termos de equipamentos, de higienização e de ligação com o rio”.
“Temos o segundo pulmão verde da cidade de Lisboa, com os 100 hectares do Parque do Tejo e do Trancão”, acrescentou.
José Moreno também entende que “houve um excesso de construção” e defende que a parte sul do Parque das Nações “não precisava de ser tão densa”, afirmando que “há lá locais que podem dificultar o socorro em situações de necessidade”.
Pelo caminho ficaram os prometidos campo de golfe, centro equestre e parque temático sobre oceanos, que José Moreno espera que ainda venham a ser construídos.