Destino incerto para milhares de ficheiros de doentes do Hospital Particular Lisboa

Destino incerto para milhares de ficheiros de doentes do Hospital Particular Lisboa

O destino de milhares de ficheiros dos doentes que nos últimos 40 anos foram atendidos no encerrado Hospital Particular de Lisboa é incerto, o que preocupa a direção por não se saber onde vão parar estes dados clínicos confidenciais.
O Hospital Particular de Lisboa (Hopalis) foi declarado insolvente no passado dia 24, depois de falhadas as negociações com os credores, que recusaram a proposta da administração no âmbito do Processo Especial de Revitalização (PER), segundo disse à Lusa o diretor clínico do hospital.
Com o hospital encerrado, a direção clínica está preocupada com “as dezenas de milhares de ficheiros clínicos” que estão no seu interior e contêm informação médica e confidencial, afirmou Carlos Amaro Neves.
“Se o hospital for reativado, os ficheiros podem permanecer na instituição, mas se tal não acontecer é preciso dar um destino aos mesmos”, adiantou o diretor clínico.
Para já, ainda se desconhece para onde irão estes ficheiros, já que nunca se registou um encerramento deste tipo de uma instituição de saúde privada.
O fecho deste hospital foi determinado após os credores da instituição terem inviabilizado uma proposta para obter condições para o pagamento das dívidas aos fornecedores e aos trabalhadores, que ascendem a 12 milhões de euros.
A Segurança Social, um dos maiores credores, nem sequer respondeu à proposta, assim como outros credores, entre os quais trabalhadores, que optaram por recusar a oferta, disse.
Segundo Carlos Amaro Neves, a proposta permitia que a dívida fosse reduzida de 12 milhões de euros para três a quatro milhões de euros, valor que para ser atingido implicava que os fornecedores perdoassem algumas das dívidas.
Com a proposta recusada, foi declarada a insolvência da empresa e nomeado um administrador que está, neste momento, a reunir informações sobre as dívidas, bem como a fazer um levantamento dos bens para posterior venda.
A reunião de credores da Hopalis está marcada para o próximo dia 12 de junho, no Tribunal de Comércio de Lisboa.
Carlos Amaro Neves ressalva que muito do material está em regime de leasing e é, por isso, propriedade das locadoras.
Aiantou que atualmente já não existem trabalhadores em funções nas instalações do hospital, o primeiro privado em Portugal.
O edifício – propriedade da Fundação Stanley Ho - já foi assaltado, mas não foi levado “nada de relevante”, disse.
O fim do Hospital Particular de Lisboa começou a desenhar-se há um ano, quando os clínicos decidiram encerrar o serviço de urgência por considerarem que não existia condições para que funcionasse.
Nos meses seguintes, apenas dois doentes permaneceram internados, a receber cuidados continuados, tendo sido transferidos em outubro de 2012 para outras instituições.
No local continuaram alguns funcionários, principalmente administrativos, que reclamavam salários em atraso.
Em outubro do ano passado, alguns funcionários manifestaram-se frente à instituição a reclamar os seus vencimentos em atraso e a apelar a uma intervenção que evitasse o fim de uma instituição com mais de 40 anos de vida.
Ao não aceitarem a proposta no âmbito do Processo Especial de Revitalização (PER), como Carlos Amaro Neves disse que aconteceu, garantiram os valores do subsídio de desemprego e do fundo de garantia, que o Estado atribui nos casos de insolvência das empresas.
O médico ainda acredita na recuperação do hospital: “É uma pena não ser aproveitado”, disse.
No final do ano passado, a Lusa visitou as instalações do Hospital Particular de Lisboa e testemunhou o vazio das salas que davam ao edifício um aspeto abandonado.