Castelo dos Mouros ganha nova vida

Castelo dos Mouros ganha nova vida


Parques de Sintra-Monte da Lua promove projecto de valorização que ascende a 3,2 milhões de euros.
A 'refundação' do Castelo dos Mouros está em marcha, por iniciativa da Parques de Sintra-Monte da Lua, através de um vasto projecto de requalificação que representa um investimento global de 3,2 milhões de euros. O projecto de valorização, denominado “À Conquista do Castelo”, estará concluído em finais de Abril de 2013, segundo as previsões da empresa, que quer reforçar as potencialidades turísticas do pólo patrimonial, alvo de 265 mil visitas em 2011.
Em curso desde 2009, o projecto contempla o restauro dos caminhos e das muralhas, sem esquecer a instalação de infra-estruturas (redes de energia eléctrica, comunicações e saneamento básico), a par da melhoria das condições de recepção dos visitantes. Com uma comparticipação financeira do PIT (Programa de Intervenção do Turismo) na ordem dos 600 mil euros, os trabalhos vão dotar o Castelo dos Mouros de um Centro de Acolhimento ao Visitante.
“O objectivo do projecto, juntamente com a recuperação das muralhas e dos caminhos, é dotar o Castelo de infra-estruturas de apoio aos visitantes”, realça Daniel Silva, coordenador da intervenção. Nas antigas cavalariças, está a ser criado um equipamento de apoio ao visitante, que contempla bilheteira/loja, instalações sanitárias e cafetaria com esplanada, um conjunto de construções em madeira de acácia, interligadas por passadiços que, além de facilitarem o acesso a pessoas com mobilidade condicionada (um dos objectivos do projecto em curso), permitem valorizar os achados arqueológicos que foram descobertos no âmbito de escavações realizadas no local.
Uma parcela dos vestígios arqueológicos recolhidos, em campanhas que contaram com a parceria da Universidade Nova de Lisboa, vão fazer parte do Centro de Interpretação da História do Castelo, que resulta da reabilitação da Igreja de São Pedro de Canaferrim, uma ruína à entrada da fortificação que, além da recuperação e consolidação das muralhas, vai merecer a instalação de uma cobertura metálica reversível, não apoiada nas suas paredes, que ostentam no interior pinturas murais que, provavelmente, remontam ao século XV.
Ainda à entrada do Castelo, entre a Igreja e a muralha nascente, as escavações puseram a descoberto uma necrópole medieval, que permitiu identificar 33 sepulturas, cada uma com dois a três enterramentos, numa área pontuada ainda por vestígios do bairro islâmico da fortificação. Os arqueólogos identificaram os alicerces de habitações associadas a silos escavados no solo rochoso, sobre as quais foi edificada a muralha que, neste caso, ao contrário do que se supunha, não será de fundação muçulmana mas medieval.
“O castelo, fundado pelos árabes, seria uma fortificação mais pequena, as populações instalaram-se ao seu redor, mas depois, na época da reconquista (século XII), todo o bairro foi arrasado e construiu-se, no mesmo espaço, a necrópole”, explica a arqueóloga Maria João Sousa relativamente à leitura dos resultados das escavações. Foram identificados ainda vestígios do Neolítico, como um vaso cerâmico de asas bífidas, inteiro, datado do 5.º milénio a.C. “É uma zona que tem sido habitada desde sempre”, salienta a arqueóloga.
As escavações arqueológicas estenderam-se ao interior do Castelo, ao outro lado da muralha nascente, precisamente a zona das antigas cavalariças e obrigaram à reformulação do projecto do Centro de Acolhimento ao Visitante. A intervenção teve de acautelar a preservação dos achados arqueológicos, nomeadamente silos de armazenamento de cereais e ruínas de casa muçulmana, que poderão ser visualizados através da instalação de uma plataforma. Também a Cisterna, de origem cristã, vai poder ser visitada no seu interior, já que irá dispor de “apenas um metro de água” e a construção de um passadiço, devidamente enquadrado com iluminação cénica.
Sem uma intervenção de requalificação desde os anos 50, o castelo apresentava sinais visíveis de degradação ao nível das muralhas e dos caminhos, tanto interiores como exteriores. “As muralhas estavam bastante degradadas, em alguns pontos já com ruínas parciais”, frisa Daniel Silva. Para concretizar esta intervenção, as muralhas foram estudadas por especialistas em Arqueologia da Arquitectura do Centro de Ciências Humanas y Sociales de Madrid, para identificar as várias fases de construção, enquanto o Instituto Superior Técnico procedeu à definição das argamassas adequadas para executar os trabalhos.
Em muito mau estado, os caminhos foram intervencionados ao longo de cinco fases, duas no exterior e três no interior, tendo sempre como preocupação não impedir o acesso dos visitantes. O caminho principal, entre a Estrada da Pena e a entrada do Castelo, consistiu na quarta fase dos trabalhos, com recurso a uma opção tradicional: “Pedra de granito irregular, amarelo, condizente com a Serra”. Uma intervenção que vai permitir que pessoas com mobilidade reduzida acedam “ao ponto mais aliciante, a vista para a Vila”.
Após os caminhos de ronda, no interior da fortificação, a última fase abrange a Praça de Armas. “Queremos que esta zona possa receber eventos, como uma Feira Mourisca, previsivelmente em Setembro, com carácter anual”, salienta o coordenador do projecto. Daniel Silva realça que o projecto vai permitir que os visitantes “possam desfrutar o Castelo e passar aqui algumas horas, não se limitando às vistas”. O Castelo também reassumirá o seu lugar de destaque no Monte da Lua, através da renovação da iluminação ao longo das muralhas, com recurso a tecnologia LED, valorizando a visualização da sua silhueta a partir de diferentes pontos da vila e da serra.