Mãe louca

Uma equipa de cientistas descobriu recentemente a base neuronal que explica o instinto protetor da mãe em relação aos filhos. Ao que parece, perante uma ameaça de perigo para os filhos, a mãe arrisca a própria vida movida pela oxitocina, a “hormona do amor” que atua em muitas regiões do cérebro e que influencia vários comportamentos. Segundo a investigadora Marta Moita, “a oxitocina é uma hormona que entra em ação numa situação de ameaça e que atua na amígdala de forma a suprimir a resposta de autodefesa e permitir a resposta de defesa das crias”. Outros investigadores afirmam que nenhuma mãe que mata um filho pode ser vista como alguém com uma consciência sã. Segundo os especialistas, para estarmos perante um filicídio a mãe deve padecer de algum distúrbio mental. Questionamos, assim, que disfunção cognitiva temporária terá, no dia 17 de junho, vitimado a “Mãe natureza” para que esta perpetrasse tamanha atrocidade. Onde estava a sua “hormona do amor” naquele momento? Naquele dia, a “Mãe natureza” tinha alguns filhos que se divertiam na praia, no mar, em esplanadas ou em outras atividades ao ar livre, aproveitando o extremo calor que, para júbilo de muitos, se fazia sentir. Para esses a Mãe sorriu e embalou com raios de sol e um mar convidativo. Para outros, a Mãe tinha planos diferentes. Aos poucos, a Mãe foi dando sinais de que não estava nos seus dias. Os seus humores ganharam a forma de nuvens negras e trovoada seca, como se ela se debatesse numa fúria sem lágrimas. Concentrou a sua ira numa área delimitada para onde atirou de forma colérica raios e descargas elétricas na direção de uma floresta seca e maltratada. Pedrógão, talvez por ser “grande”, foi o palco escolhido para a enorme catástrofe. Durante horas a mãe explodiu a sua fúria lançando labaredas, raios, fortes ventos, fumo e temperaturas extremas. Indiferente ao desespero desses filhos, a assassina “Mãe natureza” encurralou-os para sempre na Estrada Nacional 236, para onde tinham sido desviados por ser uma das vias que não tinha, ainda, sido cortada pelas autoridades. Bruta, a Mãe demente ordenou aos que passavam pela N236 que parassem para sempre. O rumo e a meta foram perdidos pelo fumo intenso que respiraram para a morte. A caligem espessa orientou-os para o fim. Mordaz, a “grande Mãe” continuou a sua loucura fazendo com que outros seguissem sofrendo desesperadamente. Entretida a ler a obra de Dante, a Mãe viu, admirada, a tenacidade dos homens que não desistiram de combater uma luta desigual. Incrédula, observou do alto a coragem dos bombeiros que não baixaram os braços, decididos a travar a sua alucinação. Boquiaberta, viu a articulação das autoridades que tudo fizeram para minimizar os danos e socorrer as vítimas. Pasmada, viu abraços genuínos e rostos de verdadeiro desalento serem trocados entre elementos do governo, presidência da república, forças de defesa e segurança, meios de socorro e auxílio, autarcas, órgãos de comunicação social e o povo anónimo.
Sabes, Mãe, sabemos que querias provocar o caos e encontrar bodes expiatórios. Talvez tenhamos facilitado em algumas medidas, acreditando que estivesses sempre do nosso lado. Quiçá querias que apontássemos o dedo uns aos outros e iniciássemos uma zaragata. Gostavas, sabe-se lá porquê, de nos ver de costas voltadas. Pois bem, fizemos o contrário: estamos mais unidos e solidários do que nunca. Temos muitas “hormonas do amor” para distribuir, até para ti de quem vamos continuar a cuidar para que, de futuro, não consigas magoar-te tanto. Como disse o Presidente da nossa República, “Somos como um só, por Portugal”. Aqui, a única louca, foste tu!

Por Maria João Ribeiro


Sociedade em mono doses


O homem tal como o estudamos na escola primária, ainda na disciplina de “Meio físico e social”, está a desaparecer. O mais interessante é constatar que é o próprio homem o responsável por a sua espécie se estar a transformar numa condição em vias de extinção. Como se de um lento suicídio se tratasse, o ser humano vai praticando atos – ou deixando de praticar outros - que o vão conduzindo até ao seu fim. À cabeça, para ilustrar este fenómeno, vem-nos a imagem do líder norte coreano, Kim Jong-un. O “querido líder” da Coreia do norte suscita polémica ao ordenar aleatoriamente execuções, ao ordenar que todos os homens do seu povo tenham o seu corte de cabelo, ao comer e fumar excessivamente e, sobretudo, ao ir brincando aos lançamentos de mísseis com a esfera mundial. Alguns dizem que, pior do que Kim Jong-un, só mesmo Trump. Um arrepiante estudo levado a cabo por 35 psiquiatras americanos quebrou o silêncio para nos dizer que Donald Trump sofre de “instabilidade emocional grave” e com isso “é incapaz de servir com segurança como presidente”. Desde este estudo que o mundo acorda todos os dias em desassossego. Dizem estes especialistas que "as falas e ações demonstram a inabilidade em tolerar visões diferentes das suas, levando a reações raivosas". A preocupação assume outro grau quando os psiquiatras concluem que as "suas palavras e comportamentos sugerem uma incapacidade profunda em simpatizar. Indivíduos com esses traços distorcem a realidade para que ela se encaixe no seu estado psicológico, atacando fatos e aqueles que os transmitem (jornalistas e cientistas)". O terror parece estar instalado! Mas esperem…Eu acho que reconheço esses sinais na minha vizinha! E  já vi algumas dessas atitudes naquele colega do escritório…E no empreiteiro que recuperou a minha casa! Serão eles perigosos manipuladores? Não. São apenas homens a largar a pele do manto da humanidade que já usamos vestido. São pessoas que adquiriram a consciência do seu individualismo e batem-se por ele até criarem uma casca grossa de egoísmo. É nessa carapaça que sentem que podem tudo: gritar com os outros, insultar o próximo, fazer gestos impróprios, encolher os ombros e até matar…Aos poucos o homem foi escolhendo ser solitário e recolher-se apenas na sua redoma deixando de ter interesse no outro. No Japão, país percursor das novas tendências mundiais, impera o “sekkusu shinai shokogun” ou “síndrome do celibato”, em que até os japoneses casados afirmam que foram deixando de se envolver sexualmente com o seu cônjuge porque simplesmente não têm por ele qualquer interesse. Os mais jovens preferem brincar com gadgets high tech, ou equilibrar fidget spinners nos dedos, do que relacionarem-se com outros seres humanos. A nova tendência de ir colocando os momentos de intimidade de lado dá pelo nome de sexless, mas acreditamos que rapidamente evoluirá para peopleless – o já vulgarizado, “cada um por si”. Este movimento já chegou ao terrorismo, optando os malfeitores por atuarem sozinhos na qualidade de “lobos solitários”, em clara recusa de associação à “matilha dos sanguinários”. Por cá, mais do que um ministério das finanças que se reduz a um super ministro, Portugal apresenta cerca de 150 candidatos autárquicos que, virando a cara aos partidos políticos, se assumem numa relação independente.


Por Maria João Ribeiro

Alheamento fulminante

“Virar a cara”, “assobiar para cima”, “seguir o seu caminho” ou “olhar para o seu umbigo”, são algumas das expressões que têm anos de história e que, com o
tempo, foram alcançando um peso cada vez maior na sociedade. Vivemos na era do “cada um por si” e parecemos esquecer que o facto do homem ser um ser “social” não é uma característica, mas uma condição. 

Não existe uma opção a este nosso estado: não podemos escolher ser ou não “sociais”, já que é algo inerente à nossa existência. 

Por isso é que sempre que dizemos ou pensamos, “isso é um problema que é dele”, estamos a manipular a nossa espécie, retirando-lhe a carga genética que faz dela um tipo diferente das demais. 

Quando assistimos a uma chamada telefónica, mantida em segredo desde 2013 até hoje, feita por um médico sírio que se encontrava num barco pesqueiro sobrelotado com cerca de 500 refugiados, que se afundava nas águas do Mediterrâneo, pedindo ajuda às autoridades italianas perante a sua impassividade, sabemos que isso é “alheamento agudo”. Quando ouvimos a reprodução das gravações desses telefonemas, constatando a aflição do médico, dizendo “Por favor despachem-se. Está a entrar água. Por favor despachem-se, por favor despachem-se. Por favor. (…) o barco está a afundar-se. Juro, há cerca de meio metro de água no barco”, e percebemos que as autoridades italianas ignoraram estes pedidos feitos durante cinco horas, sabemos que isso é “alheamento crónico”. Quando ouvimos a gravação em que o médico volta a pedir ajuda, ansioso, perguntando, esperançado, “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300” e uma voz responde com uma frieza inconcebível para aquela situação, “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta compreende?”, sabemos que demos entrada nos cuidados intensivos com “alheamento crónico severo”. 

Quando continuamos a escutar os telefonemas e o médico que se está a afundar com mais 500 passageiros - num barco em que está a entrar água, balouçando de tal forma que ameaça voltar-se com todas aquelas pessoas debilitadas e assustadas por uma viagem que compraram com o dinheiro que juntaram de uma vida para pagar a um capitão que os abandonou passadas poucas milhas da partida –, chora, enquanto repete, “Estamos a morrer. Trezentas pessoas! Estamos a morrer!”, e as autoridades italianas - qual atendedor de chamadas automático - apenas respondem “Ligue a Malta, ligue a Malta”, sabemos que é altura de usar o desfibrilhador porque já não há indícios de batimentos de humanidade. 

Quando, por fim, nos é dado a conhecer que o barco estava a 61 milhas náuticas da ilha italiana de Lampedusa, a 118 milhas náuticas da costa maltesa e a umas meras 20 milhas náuticas de um navio militar italiano, sabemos que só nos restam os cuidados paliativos…

O navio adornou. O médico sobreviveu, juntamente com a mulher e uma filha de cinco anos. Os outros dois filhos de seis anos e nove meses morreram. Morreram 268 pessoas, 60 eram crianças.

Apetece fazer o rescaldo da visita do Papa ao nosso país, não para contabilizar os quartos e os terços vendidos, mas para recordar as suas palavras exortando a uma mobilização geral “contra a indiferença, contra a miopia do olhar, para que não sejamos uma esperança abortada”. Urge uma visita ao oftalmologista social!



Ler mais: http://www.jornaldaregiao.pt/opiniao/
Por Maria João Ribeiro

Alheamento fulminante

“Virar a cara”, “assobiar para cima”, “seguir o seu caminho” ou “olhar para o seu umbigo”, são algumas das expressões que têm anos de história e que, com o
tempo, foram alcançando um peso cada vez maior na sociedade. Vivemos na era do “cada um por si” e parecemos esquecer que o facto do homem ser um ser “social” não é uma característica, mas uma condição. 

Não existe uma opção a este nosso estado: não podemos escolher ser ou não “sociais”, já que é algo inerente à nossa existência. 

Por isso é que sempre que dizemos ou pensamos, “isso é um problema que é dele”, estamos a manipular a nossa espécie, retirando-lhe a carga genética que faz dela um tipo diferente das demais. 

Quando assistimos a uma chamada telefónica, mantida em segredo desde 2013 até hoje, feita por um médico sírio que se encontrava num barco pesqueiro sobrelotado com cerca de 500 refugiados, que se afundava nas águas do Mediterrâneo, pedindo ajuda às autoridades italianas perante a sua impassividade, sabemos que isso é “alheamento agudo”. Quando ouvimos a reprodução das gravações desses telefonemas, constatando a aflição do médico, dizendo “Por favor despachem-se. Está a entrar água. Por favor despachem-se, por favor despachem-se. Por favor. (…) o barco está a afundar-se. Juro, há cerca de meio metro de água no barco”, e percebemos que as autoridades italianas ignoraram estes pedidos feitos durante cinco horas, sabemos que isso é “alheamento crónico”. Quando ouvimos a gravação em que o médico volta a pedir ajuda, ansioso, perguntando, esperançado, “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300” e uma voz responde com uma frieza inconcebível para aquela situação, “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta compreende?”, sabemos que demos entrada nos cuidados intensivos com “alheamento crónico severo”. 

Quando continuamos a escutar os telefonemas e o médico que se está a afundar com mais 500 passageiros - num barco em que está a entrar água, balouçando de tal forma que ameaça voltar-se com todas aquelas pessoas debilitadas e assustadas por uma viagem que compraram com o dinheiro que juntaram de uma vida para pagar a um capitão que os abandonou passadas poucas milhas da partida –, chora, enquanto repete, “Estamos a morrer. Trezentas pessoas! Estamos a morrer!”, e as autoridades italianas - qual atendedor de chamadas automático - apenas respondem “Ligue a Malta, ligue a Malta”, sabemos que é altura de usar o desfibrilhador porque já não há indícios de batimentos de humanidade. 

Quando, por fim, nos é dado a conhecer que o barco estava a 61 milhas náuticas da ilha italiana de Lampedusa, a 118 milhas náuticas da costa maltesa e a umas meras 20 milhas náuticas de um navio militar italiano, sabemos que só nos restam os cuidados paliativos…

O navio adornou. O médico sobreviveu, juntamente com a mulher e uma filha de cinco anos. Os outros dois filhos de seis anos e nove meses morreram. Morreram 268 pessoas, 60 eram crianças.

Apetece fazer o rescaldo da visita do Papa ao nosso país, não para contabilizar os quartos e os terços vendidos, mas para recordar as suas palavras exortando a uma mobilização geral “contra a indiferença, contra a miopia do olhar, para que não sejamos uma esperança abortada”. Urge uma visita ao oftalmologista social!



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Alheamento fulminante

 

“Virar a cara”, “assobiar para cima”, “seguir o seu caminho” ou “olhar para o seu umbigo”, são algumas das expressões que têm anos de história e que, com o
tempo, foram alcançando um peso cada vez maior na sociedade. Vivemos na era do “cada um por si” e parecemos esquecer que o facto do homem ser um ser “social” não é uma característica, mas uma condição. 

Não existe uma opção a este nosso estado: não podemos escolher ser ou não “sociais”, já que é algo inerente à nossa existência. 

Por isso é que sempre que dizemos ou pensamos, “isso é um problema que é dele”, estamos a manipular a nossa espécie, retirando-lhe a carga genética que faz dela um tipo diferente das demais. 

Quando assistimos a uma chamada telefónica, mantida em segredo desde 2013 até hoje, feita por um médico sírio que se encontrava num barco pesqueiro sobrelotado com cerca de 500 refugiados, que se afundava nas águas do Mediterrâneo, pedindo ajuda às autoridades italianas perante a sua impassividade, sabemos que isso é “alheamento agudo”. Quando ouvimos a reprodução das gravações desses telefonemas, constatando a aflição do médico, dizendo “Por favor despachem-se. Está a entrar água. Por favor despachem-se, por favor despachem-se. Por favor. (…) o barco está a afundar-se. Juro, há cerca de meio metro de água no barco”, e percebemos que as autoridades italianas ignoraram estes pedidos feitos durante cinco horas, sabemos que isso é “alheamento crónico”. Quando ouvimos a gravação em que o médico volta a pedir ajuda, ansioso, perguntando, esperançado, “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300” e uma voz responde com uma frieza inconcebível para aquela situação, “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta compreende?”, sabemos que demos entrada nos cuidados intensivos com “alheamento crónico severo”. 

Quando continuamos a escutar os telefonemas e o médico que se está a afundar com mais 500 passageiros - num barco em que está a entrar água, balouçando de tal forma que ameaça voltar-se com todas aquelas pessoas debilitadas e assustadas por uma viagem que compraram com o dinheiro que juntaram de uma vida para pagar a um capitão que os abandonou passadas poucas milhas da partida –, chora, enquanto repete, “Estamos a morrer. Trezentas pessoas! Estamos a morrer!”, e as autoridades italianas - qual atendedor de chamadas automático - apenas respondem “Ligue a Malta, ligue a Malta”, sabemos que é altura de usar o desfibrilhador porque já não há indícios de batimentos de humanidade. 

Quando, por fim, nos é dado a conhecer que o barco estava a 61 milhas náuticas da ilha italiana de Lampedusa, a 118 milhas náuticas da costa maltesa e a umas meras 20 milhas náuticas de um navio militar italiano, sabemos que só nos restam os cuidados paliativos…

O navio adornou. O médico sobreviveu, juntamente com a mulher e uma filha de cinco anos. Os outros dois filhos de seis anos e nove meses morreram. Morreram 268 pessoas, 60 eram crianças.

Apetece fazer o rescaldo da visita do Papa ao nosso país, não para contabilizar os quartos e os terços vendidos, mas para recordar as suas palavras exortando a uma mobilização geral “contra a indiferença, contra a miopia do olhar, para que não sejamos uma esperança abortada”. Urge uma visita ao oftalmologista social!

18 de Maio de 2017