Por Maria João Ribeiro

Alheamento fulminante

“Virar a cara”, “assobiar para cima”, “seguir o seu caminho” ou “olhar para o seu umbigo”, são algumas das expressões que têm anos de história e que, com o
tempo, foram alcançando um peso cada vez maior na sociedade. Vivemos na era do “cada um por si” e parecemos esquecer que o facto do homem ser um ser “social” não é uma característica, mas uma condição. 

Não existe uma opção a este nosso estado: não podemos escolher ser ou não “sociais”, já que é algo inerente à nossa existência. 

Por isso é que sempre que dizemos ou pensamos, “isso é um problema que é dele”, estamos a manipular a nossa espécie, retirando-lhe a carga genética que faz dela um tipo diferente das demais. 

Quando assistimos a uma chamada telefónica, mantida em segredo desde 2013 até hoje, feita por um médico sírio que se encontrava num barco pesqueiro sobrelotado com cerca de 500 refugiados, que se afundava nas águas do Mediterrâneo, pedindo ajuda às autoridades italianas perante a sua impassividade, sabemos que isso é “alheamento agudo”. Quando ouvimos a reprodução das gravações desses telefonemas, constatando a aflição do médico, dizendo “Por favor despachem-se. Está a entrar água. Por favor despachem-se, por favor despachem-se. Por favor. (…) o barco está a afundar-se. Juro, há cerca de meio metro de água no barco”, e percebemos que as autoridades italianas ignoraram estes pedidos feitos durante cinco horas, sabemos que isso é “alheamento crónico”. Quando ouvimos a gravação em que o médico volta a pedir ajuda, ansioso, perguntando, esperançado, “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300” e uma voz responde com uma frieza inconcebível para aquela situação, “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta compreende?”, sabemos que demos entrada nos cuidados intensivos com “alheamento crónico severo”. 

Quando continuamos a escutar os telefonemas e o médico que se está a afundar com mais 500 passageiros - num barco em que está a entrar água, balouçando de tal forma que ameaça voltar-se com todas aquelas pessoas debilitadas e assustadas por uma viagem que compraram com o dinheiro que juntaram de uma vida para pagar a um capitão que os abandonou passadas poucas milhas da partida –, chora, enquanto repete, “Estamos a morrer. Trezentas pessoas! Estamos a morrer!”, e as autoridades italianas - qual atendedor de chamadas automático - apenas respondem “Ligue a Malta, ligue a Malta”, sabemos que é altura de usar o desfibrilhador porque já não há indícios de batimentos de humanidade. 

Quando, por fim, nos é dado a conhecer que o barco estava a 61 milhas náuticas da ilha italiana de Lampedusa, a 118 milhas náuticas da costa maltesa e a umas meras 20 milhas náuticas de um navio militar italiano, sabemos que só nos restam os cuidados paliativos…

O navio adornou. O médico sobreviveu, juntamente com a mulher e uma filha de cinco anos. Os outros dois filhos de seis anos e nove meses morreram. Morreram 268 pessoas, 60 eram crianças.

Apetece fazer o rescaldo da visita do Papa ao nosso país, não para contabilizar os quartos e os terços vendidos, mas para recordar as suas palavras exortando a uma mobilização geral “contra a indiferença, contra a miopia do olhar, para que não sejamos uma esperança abortada”. Urge uma visita ao oftalmologista social!

18 de Maio de 2017

“Virar a cara”, “assobiar para cima”, “seguir o seu caminho” ou “olhar para o seu umbigo”, são algumas das expressões que têm anos de história e que, com o tempo, foram alcançando um peso cada vez maior na sociedade. Vivemos na era do “cada um por si” e parecemos esquecer que o facto do homem ser um ser “social” não é uma característica, mas uma condição. 
Não existe uma opção a este nosso estado: não podemos escolher ser ou não “sociais”, já que é algo inerente à nossa existência. 
Por isso é que sempre que dizemos ou pensamos, “isso é um problema que é dele”, estamos a manipular a nossa espécie, retirando-lhe a carga genética que faz dela um tipo diferente das demais. 
Quando assistimos a uma chamada telefónica, mantida em segredo desde 2013 até hoje, feita por um médico sírio que se encontrava num barco pesqueiro sobrelotado com cerca de 500 refugiados, que se afundava nas águas do Mediterrâneo, pedindo ajuda às autoridades italianas perante a sua impassividade, sabemos que isso é “alheamento agudo”. Quando ouvimos a reprodução das gravações desses telefonemas, constatando a aflição do médico, dizendo “Por favor despachem-se. Está a entrar água. Por favor despachem-se, por favor despachem-se. Por favor. (…) o barco está a afundar-se. Juro, há cerca de meio metro de água no barco”, e percebemos que as autoridades italianas ignoraram estes pedidos feitos durante cinco horas, sabemos que isso é “alheamento crónico”. Quando ouvimos a gravação em que o médico volta a pedir ajuda, ansioso, perguntando, esperançado, “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300” e uma voz responde com uma frieza inconcebível para aquela situação, “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta compreende?”, sabemos que demos entrada nos cuidados intensivos com “alheamento crónico severo”. 
Quando continuamos a escutar os telefonemas e o médico que se está a afundar com mais 500 passageiros - num barco em que está a entrar água, balouçando de tal forma que ameaça voltar-se com todas aquelas pessoas debilitadas e assustadas por uma viagem que compraram com o dinheiro que juntaram de uma vida para pagar a um capitão que os abandonou passadas poucas milhas da partida –, chora, enquanto repete, “Estamos a morrer. Trezentas pessoas! Estamos a morrer!”, e as autoridades italianas - qual atendedor de chamadas automático - apenas respondem “Ligue a Malta, ligue a Malta”, sabemos que é altura de usar o desfibrilhador porque já não há indícios de batimentos de humanidade. 
Quando, por fim, nos é dado a conhecer que o barco estava a 61 milhas náuticas da ilha italiana de Lampedusa, a 118 milhas náuticas da costa maltesa e a umas meras 20 milhas náuticas de um navio militar italiano, sabemos que só nos restam os cuidados paliativos…
O navio adornou. O médico sobreviveu, juntamente com a mulher e uma filha de cinco anos. Os outros dois filhos de seis anos e nove meses morreram. Morreram 268 pessoas, 60 eram crianças.
Apetece fazer o rescaldo da visita do Papa ao nosso país, não para contabilizar os quartos e os terços vendidos, mas para recordar as suas palavras exortando a uma mobilização geral “contra a indiferença, contra a miopia do olhar, para que não sejamos uma esperança abortada”. Urge uma visita ao oftalmologista social!