Dilema às pintinhas

18-05-2017 14:51

Por Maria João Ribeiro

Dilema às pintinhas

Um dia perguntaram a um velho sábio qual era a coisa mais difícil do mundo. Sem hesitar, o sábio respondeu: “Aconselhar-se a si próprio”. Admirados com a simplicidade da resposta, lançaram nova questão ao velho prudente: “E o que é mais fácil?”. Com a mesma rapidez o homem respondeu: “Aconselhar os outros”. 
Recentemente, uma jovem de 17 anos morreu em Portugal vítima de sarampo. Depressa se ergueram vozes críticas denunciando, sem verdadeiro conhecimento de causa, que os pais da rapariga seriam “naturistas” e “anti vacinas”, acusando-os de não pensarem nas consequências dessas opções de vida para a sua filha e para os filhos dos outros. O luto e a tristeza pela perda de uma filha adolescente foram desrespeitados pelas críticas frias e ferozes que lançaram culpas e remorsos aos anojados. Num momento de dor incalculável, os pais tiveram de interromper as lágrimas para virem explicar ao mundo que a filha havia tido uma reacção muito grave a uma vacina ainda em bebé e que, perante o risco de morte e o aconselhamento médico na altura, não voltaram a vaciná-la. 
Foi, de certeza, difícil aconselharem-se a si próprios a tomar essa decisão. Hoje, porém, para muitos é fácil dizerem a estes pais que a decisão que tomaram estava errada. Travestindo-se de médicos, as tais vozes críticas ignoraram que a jovem sofria de psoríase e que estaria a tomar imunossupressores – medicamentos que reduzem as defesas – e, por este motivo, teria ficado mais susceptível de contrair doenças. 
Para além disso, estranha-se o enfoque mediático sobre a adolescente defunta que terá sido contagiada por uma criança de 13 meses não vacinada – que depois terá também contagiado quatro funcionários do hospital de Cascais, dois dos quais médicos –, de quem ninguém fala e que já estaria atrasada um mês no cumprimento do Plano Nacional de Vacinação… Licenciados à pressa à conta desta situação, hoje são muitos os “médicos”–quais treinadores instantâneos de bancada – que “sabem muito” sobre esta matéria. Uns são contra as vacinas, ignorando o quanto a vacinação já fez recuar perigosas e fatídicas doenças, outro defendem-nas, embora saibamos que estas são responsáveis por inúmeros problemas secundários na saúde de quem as recebe e que alimentam faustosamente opulentos laboratórios farmacêuticos. 
Professores catedráticos e constitucionalistas consideram que não há nada na Constituição que proíba a vacinação obrigatória quando está em causa a protecção da saúde pública e o perigo de contágio alargado de uma doença. São, assim, muitos os que dizem que a vacinação deveria ser obrigatória, mas não materializam as consequências para o seu incumprimento. Avançam alguns que as crianças não vacinadas não deveriam poder inscrever-se nas escolas revelando-se, deste modo, “pais tão preocupados com os filhos dos outros” como os pais que eles censuram por não vacinarem as suas crianças e ignorarem os miúdos alheios. 
Esta intolerância e raiva lançadas aos pais que adoptam esta postura ainda se compreendem menos quando as autoridades asseguram que as crianças vacinadas não correm riscos. Seguro é que a vacina do sarampo é gratuita e, ao que parece, para as crianças que possam fazer uma maior reacção à vacina, esta pode ser feita de forma mais controlada em ambiente hospitalar (embora num processo nunca isento de riscos). +
Se é certo, no entanto, que o combate ao sarampo requer uma vacinação superior a 95%, mais do que uma “obrigação” – cujas consequências para o não cumprimento ainda não vislumbramos – talvez a tolerância (é uma “sugestão”, não um “aconselhamento”) seja um melhor caminho para “sensibilizar” os mais desconfiados (que, cremos, não serem mal intencionados) de que, pesados os prós e os contras, a vacinação vai mais ao encontro do que verdadeiramente aqui interessa: a sobrevivência das próprias crianças.

Um dia perguntaram a um velho sábio qual era a coisa mais difícil do mundo. Sem hesitar, o sábio respondeu: “Aconselhar-se a si próprio”. Admirados com a simplicidade da resposta, lançaram nova questão ao velho prudente: “E o que é mais fácil?”. Com a mesma rapidez o homem respondeu: “Aconselhar os outros”. 

Recentemente, uma jovem de 17 anos morreu em Portugal vítima de sarampo. Depressa se ergueram vozes críticas denunciando, sem verdadeiro conhecimento de causa, que os pais da rapariga seriam “naturistas” e “anti vacinas”, acusando-os de não pensarem nas consequências dessas opções de vida para a sua filha e para os filhos dos outros. O luto e a tristeza pela perda de uma filha adolescente foram desrespeitados pelas críticas frias e ferozes que lançaram culpas e remorsos aos anojados. Num momento de dor incalculável, os pais tiveram de interromper as lágrimas para virem explicar ao mundo que a filha havia tido uma reacção muito grave a uma vacina ainda em bebé e que, perante o risco de morte e o aconselhamento médico na altura, não voltaram a vaciná-la. 

Foi, de certeza, difícil aconselharem-se a si próprios a tomar essa decisão. Hoje, porém, para muitos é fácil dizerem a estes pais que a decisão que tomaram estava errada. Travestindo-se de médicos, as tais vozes críticas ignoraram que a jovem sofria de psoríase e que estaria a tomar imunossupressores – medicamentos que reduzem as defesas – e, por este motivo, teria ficado mais susceptível de contrair doenças. 

Para além disso, estranha-se o enfoque mediático sobre a adolescente defunta que terá sido contagiada por uma criança de 13 meses não vacinada – que depois terá também contagiado quatro funcionários do hospital de Cascais, dois dos quais médicos –, de quem ninguém fala e que já estaria atrasada um mês no cumprimento do Plano Nacional de Vacinação… Licenciados à pressa à conta desta situação, hoje são muitos os “médicos”–quais treinadores instantâneos de bancada – que “sabem muito” sobre esta matéria. Uns são contra as vacinas, ignorando o quanto a vacinação já fez recuar perigosas e fatídicas doenças, outro defendem-nas, embora saibamos que estas são responsáveis por inúmeros problemas secundários na saúde de quem as recebe e que alimentam faustosamente opulentos laboratórios farmacêuticos. 

Professores catedráticos e constitucionalistas consideram que não há nada na Constituição que proíba a vacinação obrigatória quando está em causa a protecção da saúde pública e o perigo de contágio alargado de uma doença. São, assim, muitos os que dizem que a vacinação deveria ser obrigatória, mas não materializam as consequências para o seu incumprimento. Avançam alguns que as crianças não vacinadas não deveriam poder inscrever-se nas escolas revelando-se, deste modo, “pais tão preocupados com os filhos dos outros” como os pais que eles censuram por não vacinarem as suas crianças e ignorarem os miúdos alheios. 

Esta intolerância e raiva lançadas aos pais que adoptam esta postura ainda se compreendem menos quando as autoridades asseguram que as crianças vacinadas não correm riscos. Seguro é que a vacina do sarampo é gratuita e, ao que parece, para as crianças que possam fazer uma maior reacção à vacina, esta pode ser feita de forma mais controlada em ambiente hospitalar (embora num processo nunca isento de riscos). +

Se é certo, no entanto, que o combate ao sarampo requer uma vacinação superior a 95%, mais do que uma “obrigação” – cujas consequências para o não cumprimento ainda não vislumbramos – talvez a tolerância (é uma “sugestão”, não um “aconselhamento”) seja um melhor caminho para “sensibilizar” os mais desconfiados (que, cremos, não serem mal intencionados) de que, pesados os prós e os contras, a vacinação vai mais ao encontro do que verdadeiramente aqui interessa: a sobrevivência das próprias crianças.

26 de Abril de 2017